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Servindo de leito onde se espraiam preguiçosamente os braços meridionais da Ria de Aveiro, as arenosas terras vaguenses são o ponto de encontro e cruzamento de não poucas regiões naturais.
Encravado a sul de Ílhavo e Aveiro, a norte de Mira e a oeste de Oliveira do Bairro, o Concelho de Vagos tem o Atlântico por limite poente.
Desde cedo esta realidade influiu na vida da região. Vagos é tão velho como Portugal, crescendo na colina poente sobranceira ao Rio Boco. Mas as terras a jusante da localidade ainda não estavam formadas, e o mar vinha beijar os seus arredores.
Prova disso, a lenda com fundo histórico plausível do aparecimento da Senhora de Vagos – imagem trazida em navio francês que naufragou na costa a escassa distância da Vila. No local se construiu uma capela (a primitiva) e uma torre de vigia.
À Senhora da capela deixou o rei D. Sancho em testamento assinalável dote. As areias, porém, continuaram a subir ao sabor dos ventos e das águas. Mais tarde, quando já a linha de costa tinha chegado ao plano actual, nova capela foi construída mais perto da Vila, no local onde hoje se encontra. Serve para abrigar uma imagem de Santa Maria, que não pode ser a do naufrágio, pois se trata de pedra de Ançã lavrada nos finais da Idade Média. E abriga também a multidão da Segunda-feira do Espírito Santo, tal como os inúmeros romeiros que ali acorrem todos os dias.
Mas Vagos, que desde cedo teve alguma importância, a ponto de dar nome a uma das portas da muralha de Aveiro, foi crescendo lentamente, e formou concelho. D. Manuel I lhe deu foral, juntamente com o de Sosa, vila situada a dous tiros de besta pêra o lado nascente. Mais adiante ficava o Concelho de Sorães, local obscuro hoje na nova freguesia de Santa Catarina.
Confluindo por aqui as terras da Bairrada até ao Rio Boco, fartas de vinho e pão, estendem-se depois até ao mar as terras gandaresas e gafanhoas. Entre as duas realidades se costuma situar a Gelfa, terra pobre e ressequida onde os gelfeiros gastaram o seu suor em arroteias para extorquir um magro sustento. Digamos que a Gelfa é o último trecho da Gândara, as terras arenosas a pinhal que correm o litoral da Serra da Brenha à Ria de Aveiro. E que as margens desta última formam as Gafanhas, desde o pinhal até ao mar.
Terra rural e pobre, Vagos forneceu desde cedo contingentes de operários e artistas à Vista Alegre e, mais à frente, nas salinas de Aveiro, grande parte dos marnotos eram vaguenses. Mas Vagos sangrou também os melhores dos seus homens para as costas da Terra Nova, em busca daquele fiel amigo que fazia as delícias da sóbria mesa dos portugueses. Por mais perto ficavam os gafanhões, que no Verão demandavam o mar com barcos e bois em busca da sardinha que, bem medida e repartida, acompanhava a porção de broa que servia de quinhão a cada um. Duros homens tisnados pelo sol do campo, atravessavam a pé as dunas alombando às costas os cestos de peixe enfiados numa vara, e o ronco monótono do búzio apoiava o pregão pelas ruas.
Hoje, as dunas estão cobertas pela sombra agradável do pinhal, semeado herculeamente pelo segundo quartel de novecentos. A mão criminosa ainda o não conseguiu queimar todo.
Mais tarde, haveriam de vir os anos da emigração em massa, e quando já o Brasil não enchia as medidas dos que se aventuravam ao largo, seria a Venezuela, a América, o Canadá, a França e a Alemanha a dar guarida aos mais foitos dos nossos homens.
Em terrenos arroteados até finais de oitocentos, Vagos implantou nos anos setenta do século vinte, com o contributo das novas técnicas, uma produção agrícola e leiteira desenvolvida, das melhores do País. O único senão, era o minifúndio. Hoje, com a falta de competitividade agrícola e a industrialização, está a maioria dos seus ubérrimos terrenos ao abandono.
Da portentosa cooperativa agrícola, que chegou a ser uma das cem maiores empresas do País em volume de negócios, resta hoje um ressequido esqueleto. As mudanças sociais e a incúria dos homens a levaram a tal. Tentam agora os novos responsáveis redireccionar o seu labor para apoio a novos vectores agrícolas.
Em espaço retirado aos terrenos florestais, desenvolveu-se entretanto uma zona industrial na qual pontificam as cerâmicas, na boa tradição da região, enquanto por todo o Concelho o dinamismo dos nossos homens se vê no grande número de pequenas e médias indústrias. Espera-se no entanto que a boa localização geográfica, a dois passos das melhores vias de acesso do País, permita a Vagos o desenvolvimento que o passado tem teimado em lhe negar.
Do turismo se espera também que venha ser uma mola de desenvolvimento numa região onde não faltam atractivos naturais.
Para que Vagos não seja dormitório de vizinhos mais poderosos, resta realmente a esperança num verdadeiro desenvolvimento integrado, que promova a industrialização, a agricultura e o turismo, apoiados na criação das indispensáveis infraestruturas que os responsáveis políticos e administrativos teimam em não dar às gentes destas terras.